21 de setembro (September)
- Henke Henning
- 21 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Para Mauro e Lúcia, o dia 21 de setembro já havia se tornado uma data qualquer no calendário, sem grande cerimônia. Mas naquele ano, o destino resolveu dar um cutucão.
Mauro estava remexendo papeis antigos no escritório, numa dessas tentativas sem futuro de colocar a vida em ordem. No fundo de uma pasta, encontrou uma fotografia já amarelada, com sinais do tempo. Era ele, aos vinte e poucos anos, cercado de amigos que sorriam como se tivessem toda uma vida pela frente.

Atrás da foto, escrito à caneta: 21/9/1978.
Ele caminhou até a sala e balançou a foto diante de Lúcia.
— Luci, você lembra desse dia? 21 de setembro de 78? Onde a gente estava aqui?
Ela pegou a foto, aproximou dos olhos, precisou de um segundo para consultar sua memória. Devolveu a foto às mãos dele e respirou como quem volta de uma viagem. — Lembro, sim. — E começou a contar.
— Foi a primeira vez que a gente se viu de verdade. Não oficialmente, claro… mas foi ali que eu reparei em você.
Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha. Um gesto que Mauro reconhecia desde meados de quando aquela foto foi tirada:
— Eu lembro da discoteca lotada, o chão meio grudento, aquele cheiro de cigarro misturado com perfume barato… e você parado perto do balcão, tentando parecer natural enquanto mexia no colarinho da camisa e conversava com seus amigos. A sua camisa era azul-clara! Eu nunca esqueci. Roberto te cutucava o tempo todo e estalava os dedos na sua frente porque você ficava olhando disfarçado na minha direção e ele achava graça.
Mauro riu pois achava até então que não havia sido notado. Estava incrédulo de que aquela versão dos fatos ainda existisse inteira dentro dela.
— E eu? — perguntou ele. — O que é que eu fazia que chamou sua atenção?
— Você tinha aquele ar meio sério, mas só até alguém contar uma piada. Aí você ria com o corpo inteiro. Abaixava a cabeça para rir e colocava as mãos na cintura… e sempre ajeitava o colarinho. Eu notei isso naquele dia. Notei também que você fingia conversar com o Carlos, mas na verdade estava tentando ouvir o que eu dizia para a Rita. Era óbvio, Mauro. Você era transparente.
Ela fez uma pausa, como quem saboreia a lembrança antes de continuar:
— Teve um momento em que eu estava na pista e senti alguém olhar de verdade. Um olhar que segura a gente por dentro. Quando virei, era você. E eu pensei — “esse broto ainda vai me dar trabalho”.
Não ficaram juntos naquela noite — os dois estavam ocupados demais fingindo desinteresse — e nem nas noites subsequentes. Mas o grupo de amigos tratou de aproximar o que o orgulho teimava em adiar. Foram meses de encontros casuais, conversas atravessadas, risadas roubadas e… expectativas silenciosas.

Até que em dezembro, quase 3 meses depois, Mauro finalmente tomou coragem.
Lúcia sempre dizia que esperou todo aquele tempo como quem espera a nova música do seu artista favorito tocar no rádio: sem saber quando, mas com a certeza de que a melodia viria e seria um momento memorável.
E veio.
O encontro foi o típico encontro da virada dos anos 70 para os 80: Mauro apareceu na porta da casa dela com cheiro de loção pós-barba, cabelo lambido e a camisa mais bem passada que ele tinha. Ela surgiu usando calça flare azul-marinho e uma camisa que combinava com a dele.
Foram ao cinema ver um drama que ninguém lembra muito bem porque o que importou mesmo foi a conversa na volta, o passo lento até o portão, e a sensação de que dezembro estava inaugurando algo novo para os dois.
Quase cinquenta anos depois, ali no sofá, a foto entre eles fez o tempo dobrar como quem fecha um livro pela metade. A lembrança não trouxe só nostalgia; trouxe aquele velho calorzinho que nenhuma música da discoteca consegue traduzir, mas chega perto.
Mauro apertou a mão de Lúcia.
— Do you remember…?
Ela sorriu, não como uma senhora de setenta anos, mas como a garota de 78, com brilho jovial nos olhos:
— Como se eu fosse capaz de esquecer da "21st night of september".




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