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Alguém me disse


Sempre que venho à casa do vovô Guto, encontro partes de uma história de vida, mas desta vez encontrei algo muito maior que isso. Uma história de amor!


A tinta estava desbotada, algumas letras faltavam, mas dava para entender o essencial: apesar da memória falhar, assim como a caneta, há coisas que são mais difíceis de apagar. Fragmentos que insistem em ficar para sempre.


Olá,


Não sei se você se lembra de mim, mas hoje eu me lembrei de você. Na verdade eu nunca te esqueci, não me entenda mal. É estranho, porque faz tanto tempo que não ouço seu nome, mas ouvi uma música que falava sobre a vida, como ela passa em um instante e não vale muito. “É como as rosas que perecem. O tempo perdido é um canalha que nos entristece”.


No entanto, alguém veio me dizer que você ainda me amava. Não apenas lembrava de mim, mas ainda me amava. Pode imaginar?


Não sei onde você mora, se ainda está naquele mesmo endereço ou se ainda frequenta aqueles mesmos lugares. Me recordo das risadas que demos naquele café com temática parisiense e de você passando uma última vez pela porta de nossa casa sem se despedir. Seu casaco, que você esqueceu na cadeira da sala, ainda está guardado esperando você voltar. Na segunda porta do guarda-roupas, no cabide de madeira. Do jeito que você gostava.


O tempo me prega peças, sabe? Às vezes acordo certo de que você vai ter preparado nosso café como antes. Outras vezes, fico procurando seu rosto no jardim, entre as flores que você plantou — ou será que fui eu?


Dizem que o amor é coisa de juventude, mas eu continuo sentindo o seu perfume nas manhãs frias. Não sei se é lembrança ou invenção da minha cabeça cansada. Mas me disseram que você ainda me ama… e eu quis acreditar.


Me disseram que o destino não se importa com nossas vontades e que ele geralmente promete muito, mas não nos dá quase nada. Que ele mostra para nós a felicidade ali, ao alcance de nossas mãos, mas quando a estendemos para pegar, ficamos loucos por mais essa quebra de expectativas.


Dizem que o tempo apaga tudo. Talvez sim, mas há alguns fragmentos que o tempo deixa, entre silêncios, só para provocar. Mas também me disseram que você ainda me ama. Será que isso é verdade?


Não sei, mas de toda forma, agradeço por isso. Por um instante voltei a me lembrar de nós e acreditar no amor novamente. Alguém me disse que você ainda se lembra de mim e que me ama. E isso fez com que eu me amasse, por um instante, de novo.


Quem foi que disse que você ainda me amava? Não consigo me lembrar de quem disse isso. Era tarde da noite. Mas consigo me lembrar claramente da voz, apesar de não conseguir mais reconhecer as feições.


“Ela te ama, mas isso é segredo. Não diga a ninguém que fui eu quem te contou”. Foram essas as palavras que ouvi. Alguém me disse que você ainda me amava. Será que isso é possível?


Acho que eu devo estar ouvindo coisas. Delirando.


Com carinho,


Augusto.



Ao final, permaneci em silêncio. Vovó Tereza partiu há mais de 10 anos, antes mesmo do trágico diagnóstico do vovô. Ele costumava esquecer nossos nomes, onde estava e até as datas. Mas ela, vovô ainda via pela casa. O nome dela ainda era chamado.


Dizem que o amor é passageiro, mas nas cartas ele continua respirando. Esta, mesmo sem ter sido enviada, chegou mesmo assim.

 
 
 

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Aqui, escrevo o que penso, o que sinto e o que não sei dizer em voz alta. Meus Despropósitos é meu jeito de fazer sentido do caos.

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