Antes do toque
- Henke Henning
- 6 de mai.
- 2 min de leitura
Antes de saber o que você tem a dizer, quero conhecer o intervalo entre suas palavras. Aquele silêncio que nasce no olhar e diz mais do que a fala, quando você esquece de se proteger.
Sua pele é só a capa de um livro que eu quero ler por inteiro. Deixar ao lado da cama, abrir sem pressa, voltar páginas, decorar trechos.
Porque o corpo é fácil de alcançar. Difícil é atravessar a distância entre duas almas.
Vamos, sim, conversar por horas.
Quero saber o que te faz rir, o que te emociona, o que te faz bem. Quais músicas tocam no seu fone, quais filmes você revisita, quais hobbies te salvam do tédio.
Mas me conta também o que dói quando a casa fica quieta. A música que toca no seu coração quando ninguém escuta. O filme da sua própria vida. O motivo secreto que te faz precisar estar sempre ocupada para não pensar demais.
Antes do toque, quero que sua história encoste em mim.
Antes de entrelaçar mãos, quero entrelaçar versões nossas que a gente não costuma mostrar por aí, cheias de anéis e certezas.
Quero gostar do jeito que você pensa antes de gostar do jeito que você sente.
Quero me perder nas suas ideias antes de me perder nos seus braços. Me prender no seu mundo antes de me prender no seu abraço.

Vamos tomar um café.
Mas se, no caminho, sua alma resolver abrir a porta, sem maquiagem, sem pose, sem defesa, talvez eu descubra algo mais forte que a cafeína, mais intenso que qualquer doçura de um banoffee.
Talvez eu descubra que o verdadeiro arrepio começa numa camada muito mais profunda que a pele.
Então não ouse me tocar.
Antes da sua boca tocar a minha, eu quero a vertigem das suas ideias, o abismo das suas contradições, o caos bonito que você talvez esconda até de si.
Não me interessa a versão polida.
Quero o que você não ensaiou dizer. O que escapa quando você baixa a guarda e esquece de parecer forte.
Antes da sua pele, quero o impacto de ser atravessado por quem você é.
Quero que suas ideias me desorganizem. Que suas histórias invadam meus pensamentos. Que sua presença aconteça de dentro pra fora.
Corpos se encontram todos os dias, mas almas quase nunca colidem.
Então me conta: se você abrir as portas mais profundas de si, sem luz bonita, sem filtros, sem defesas, será que eu sobrevivo à vontade de te querer ainda mais?
Não ouse me tocar a pele antes de me tocar a alma.

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