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Dedicatória comprada

“Quem tem coragem de vender um livro que ganhou de presente?”


Essa foi a primeira pergunta que me veio à cabeça quando encontrei aquele exemplar de “O Amor Nos Tempos de Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, repousando numa prateleira empoeirada daquele sebo na Rua Sete. 


Era uma edição antiga. A capa já não tinha o brilho de antes, as páginas estavam amareladas, com cheiro de guardado e rangiam quando abertas, como se protestassem contra o esquecimento.Mas havia algo ali.


Abri na primeira página procurando o preço dele e encontrei seu valor: uma dedicatória, escrita com uma letra inclinada, apressada e ao mesmo tempo cheia de cuidado:


Dedicatória em livro

Não era uma dedicatória comum. Era uma promessa, ou talvez um eco. Por alguma razão, senti que não devia deixá-la ali e isso foi o bastante para me convencer a levá-lo para casa e não conseguir mais fechar o livro desde então. Aquela frase, tão íntima e ao mesmo tempo tão misteriosa, parecia sussurrar algo que não era pra mim, mas agora seria.


Desde então, comecei a ler o livro como quem procura uma pista. Cada capítulo, cada linha, parecia uma tentativa de decifrar a outra história contida naquela dedicatória. Tentei imaginar quem era o “você”. Um amor que acabou? Um amigo distante? Um eu antigo, talvez? Porque às vezes o presente que recebemos é uma forma de quem nos conhece tentar nos devolver a nós mesmos.

Mas o que mais me inquieta é pensar que, talvez, a pessoa tenha vendido o livro não por indiferença, mas por não suportar o peso da lembrança. E aí, de alguma forma, aquele sentimento encontrou em mim um novo leitor.


Como se as dedicatórias nunca se perdessem. Apenas trocassem de destino.


No início do livro, Márquez falava da juventude, dos primeiros encontros — de amores que ainda acreditam ser eternos — então me deparei com uma frase sublinhada a lápis:


“O coração tem mais quartos do que um hotel de prostitutas.”

Fiquei olhando para a frase por longos minutos, como quem observa uma janela acesa no prédio do outro lado da rua, curioso com as histórias proibidas de uma vida privada.Pensei que seria adequado, neste nível de intimidade em que estamos entrando, saber o nome dessa tal de “M”. 


—  Marina. Seu nome então será Marina. — falei para mim mesmo sorrindo com o canto da boca, satisfeito em ter feito esta nova amizade confidente. 


Marina então estava sozinha em sua cama King Size, com a luz de uma arandela iluminando seu lado da cama, escrevendo a dedicatória depois de sublinhar essa linha com rancor. Mais uma vez ficara acordada até tarde e foi trocada pelo trabalho. Tudo o que Marina queria era uma noite tranquila em que pudesse deitar-se com Thiago e contar sobre seu dia, ouvir sobre o dia dele, falar amenidades até o sono vir. Ele podia ficar assistindo tv, lendo um livro, usando o celular, o que quer que fosse. Bastava estar ao lado dela.


O livro estava muito carregado da energia daquele amor que não deu certo. Marina precisava dar um jeito nisso, já que finalmente fizeram as pazes.


Ou não. Talvez ela tenha se arrependido de ter se exaltado tanto na última briga que tiveram. Não via mais necessidade de voltar para a casa dos pais no interior do Estado, mas o que foi feito não há como reverter. Então ela arrumou suas malas, pegou seus pertences mais importantes, contratou a empresa de mudanças e só o que ela deixou para trás foi este livro com esta dedicatória. A esperança era de que ele encontrasse o trecho e percebesse que ainda haveria espaço para ela em seu coração.

Poético!


Livro aberto

Mas parece que Thiago não superou muito bem esse término, já que precisou se livrar de toda e qualquer lembrança de Marina naquela casa.


Ou talvez  tenha a ver com traição? Hmm… interessante!


Talvez os quartos do coração dele fossem muitos, mas não havia um reservado para ela. Ai, Thiago. Vacilou e perdeu. 


Continuei lendo.



Mais adiante, encontrei outro trecho marcado:


“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas sempre lhe lembrava o destino dos amores contrariados.”

Fechei o livro.O cheiro do sebo ainda estava nas páginas, misturado ao perfume de papel antigo e histórias vividas. O que por algum motivo me fez imaginar uma Marina lendo esse mesmo parágrafo com os olhos marejados pelo que nunca foi dito. As palavras que ficaram presas em sua garganta no momento decisivo. A declaração que nunca foi feita para aquela amiga, com medo de julgamento. Medo da rejeição


Às vezes o amor mais profundo é o que existe em silêncio, guardado como um segredo entre duas almas. Mas prefiro pensar que ela tenha se declarado, sim, e a história começou feliz como deveria ser. Mas a família de Marina não encontrou o mesmo deleite. Diziam os pais que ela precisava casar com um rapaz da mesma igreja. Era inaceitável aquele tipo de comportamento na casa conservadora onde morava. Se ao menos tivesse idade e dinheiro suficiente para se emancipar de uma vez… 


Tomara que o trecho tenha a inspirado e a venda desse livro seja simbólica: o início de uma poupança para um sonho ainda maior. Não sei você, mas eu prefiro estar do lado dos sonhadores.


Pode ser, aliás, que elas estivessem mesmo juntas, mas quem não aceitava era a família da outra menina. Que amar em silêncio tenha sido a maneira de Marina preservá-la, como quem sublinha um trecho marcante de um livro e sela tudo com uma dedicatória para que a história se eternize, mesmo que nas páginas da ficção. 


Talvez o destinatário nunca tenha lido. Ou leu e preferiu seguir ignorando sentimentos.

No dia seguinte, voltei à leitura. E então Márquez escreveu:


“A idade não protege do amor. Mas o amor, até certo ponto, protege da idade.”

Dessa vez, a anotação era quase invisível, escrita a lápis: “É por isso que eu te amei.”


Mulher lendo no escuro

Fiquei um tempo imóvel. Não sei se foi o cansaço, o silêncio da casa ou a solidão do texto, mas comecei a sentir que alguém lia comigo. Era como se o livro guardasse o fantasma de quem escreveu aquela frase e, por algum motivo, me tivesse escolhido para continuar a conversa.


O amor não envelhece. Nos despedimos das pessoas, mas não do sentimento. Acredito que este tenha sido um belo e duradouro amor, desses de filme romântico de fim de tarde. Desses de cinema vazio e corações cheios. Infelizmente essa última lembrança foi-se embora das mãos de quem a pertencia. Felizmente ela me encontrou para ser revivida.


Ou quem sabe “M” não seja uma outra pessoa. Talvez tenha sido uma fase.Um nome dado a tudo que nos marca e depois parte, deixando uma lembrança no canto da estante. Memórias.

Terminei o livro em uma madrugada mais silenciosa que o normal e a dedicatória parecia diferente agora. Menos tom de promessa, mais de despedida.


“Espero que nunca se esqueça do quanto te amei”


Talvez fosse isso o que restava quando o amor já não podia ficar: deixar ao outro uma lembrança do que ele foi capaz de sentir.


Pensei em todas as possibilidades, e em nenhuma delas encontrei uma história feliz. Mas todas tinham algo em comum: a coragem de amar o suficiente para deixar ir.


Coloquei o livro na estante e por um instante tive a impressão de que ele suspirou junto comigo. Um agradecimento da alma por não deixar essa história terminar.


Às vezes abro este livro só para reler a dedicatória. Ainda não descobri quem foi M., nem o “você” a quem ela ou ele escreveu. Talvez eu nunca descubra e talvez eu nem queira estragar essa surpresa.

Mas, de certo modo, sinto que a história já me pertence porque, desde que comprei o livro, tenho pensado muito mais em quem fui capaz de amar do que em quem um dia me amou.


 
 
 

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