Eu, a Caneca
- Henke Henning
- 15 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Sou a caneca que ele usa no dia a dia.
Não sou dessas que vivem aposentadas no fundo do armário, aparecendo só em visitas especiais. Eu sou itinerante. Nômade por necessidade e afeto. A correria dele me carrega de um canto a outro, e eu aceito e até gosto. Ter morada fixa nunca foi o meu forte.
Às vezes fico com um restinho de café até a noite. Acontece quando nosso encontro matinal dura um pouco mais do que deveria, ou quando ele acontece mais tarde do que o normal. Pequenos preços que pago feliz, porque esse trabalho me dá o privilégio de conhecer todos os cantos da casa.
Copos e pratos, coitados, no máximo conhecem o escritório. Eu já estive no quarto, na sala… e até já vi a rua, espiando a vida da varanda.
Eu testemunho tudo:
o silêncio da manhã,
a ansiedade dos prazos,
a pressa da vida acontecendo lá fora.
E é ali, entre um gole e outro, que eu vejo o que ninguém mais vê.
Quando ele está apaixonado, o café esfria.
Ele me esquece um pouco, sorrindo para o celular — e eu não reclamo. Amor quente também deixa marcas, e eu entendo cada uma delas.
Quando está triste, me aperta demais.
Sinto o tremor nos dedos, o peso daquilo que ele não diz pra ninguém. Nesses dias, eu queria ser abraço… mas não posso. Só ofereço o calor que tenho, esperando ajudar do meu jeito.
Mas os melhores dias são os de fim de semana.
O som da música matinal muda, o sabor do café fica mais doce, e finalmente podemos ter tempo. Tempo de verdade.

Mais tarde, posso até me juntar às outras canecas, que passam a semana toda só observando, mas hoje se reúnem ao meu redor, na mesa da sala. Dia de risada, de jogos, de conversas que se alongam e de hora extra sem reclamar.
Ou então passamos a tarde no escritório. Eu ali do lado dele, oferecendo companhia enquanto ele tenta terminar logo as obrigações para poder se reclinar na cadeira comigo entre as mãos. É nossa pequena vitória secreta.
No fundo, eu sei: não passo de porcelana comum.
Mas ainda assim, sou o primeiro abraço do dia.
A pausa entre o caos e a coragem.
A testemunha silenciosa de que a vida dele, por alguns segundos, cabe inteira entre os dedos.
E amanhã, quando ele acordar, eu vou estar aqui de novo — pronta para ouvir, calar e aquecer. Porque, entre nós dois, esse ritual é a única certeza que nunca esfria.




Comentários