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Monalisa


É incrível! Sabe quando uma intuição te diz para estar em algum lugar? Foi exatamente assim que eu a conheci. Em um encontro banal entre amigos, dois destinos se cruzaram. Era um evento desses que a gente vai sem expectativa, achando que a noite vai ser igual a todas as outras.


Mas não foi bem assim.


Me lembro que ela chegou um pouco depois. Em meio ao barulho de risadas e taças se encontrando, ouvi algo sobre ser difícil chamar um motorista naquele horário. Aquela entidade tinha um jeito leve de ocupar o espaço, como quem não quer chamar atenção e, por isso mesmo, chamava. Sem esforço reúne todos ao seu redor.


Eu a notei muito antes que o nome dela fosse dito. Havia algo naquele olhar oblíquo, um tipo de desinteresse interessante. Algo naquele sorriso contido, misterioso e constante.


O que eu estou dizendo? Lá vou eu de novo.


Decidi não ser muito óbvio. Disfarcei meu interesse, afinal estava ali pelo Gustavo, não para novamente me apaixonar e me iludir por alguém que posso olhar, mas não posso tocar. Como uma arte exposta no museu que atrai, encanta e é proibida.


— Ei, acorda! Vai querer que encha seu copo?


Esta era Alessandra me tirando do transe.


— Tá interessado na Elisa, né? Não tira o olho dela.

— N… não. Imagina. Eu só estava pensando aqui se conheço ela de algum lugar

— Do seu sonho, Jorge. Só se for. Ela é prima do Gustavo e veio morar aqui faz pouco tempo. Era lá do Rio, mas acho que nunca veio aqui. Peraí… ô Gustavão!


Alessandra era diferente de mim. Não se importava em chamar a atenção. Quanto a mim, assim que percebi o risco de ser notado, procurei um botão ejetor que me jogasse para longe daquela mesa e principalmente daquela situação.


— A Elisa já veio te visitar aqui alguma vez?

— Não, mas não foi por falta de convite — ele respondeu enquanto lançava um olhar provocador para Elisa.



Nossos olhares se cruzaram. Paraliso com seu olhar e novamente seu quase rir me ilumina. Eu me sinto uma mosca atraída por uma lâmpada. Queima, mas não consigo parar de olhar.


Naquele instante, entendi o que é o destino quando decide se revelar em silêncio.

Precisei me levantar para ir ao banheiro, dar uma clareada no meu pensamento. Sair daquele lugar que já atacava minha ansiedade. Não foi difícil, já que agora Alessandra e Guto chamavam toda a atenção para a conversa em voz alta deles. “Ninguém vai me notar se eu rastejar para fora daqui”, pensei.


No caminho de volta, parei no balcão do bar para pedir uma água com gás. Me sentei no banco para esperar e me preparar para voltar à mesa. Mas a vida foi mais generosa comigo. Não percebi, mas quem estava ao meu lado era Elisa.


Conversamos um pouco esperando nossos pedidos, mas foi o bastante para que eu quisesse saber mais sobre aquela mulher que parecia de outro mundo, mas ao mesmo tempo trazia uma certa inocência na fala.


“Uma deusa com ar de menina”, pensei. Essa frase me fez rir sozinho. Parecia meio exagerada, mas era a única que cabia.


Os dias seguintes vieram cheios de mensagens, encontros, descobertas. Ela me fazia rir, eu fazia… naquele ponto fazia o que ela quisesse.



Mas na mesma intensidade em que conhecemos o amor, encontramos fantasmas do passado.


Ela descobriu, por acaso, que eu já havia namorado uma amiga do Gustavo, que nos apresentou naquele dia. Foi a primeira vez em que vi aquele sorriso contido e constante deixar de se curvar para cima. Ali ela começou a se dividir entre o amor e a dúvida.


— Foi com ela que você aprendeu a fazer café desse jeito? — perguntou, meio brincando.

— Foi com o tempo — ele respondeu, tentando sorrir. — E com a vontade de acertar agora.

— Ah, sim. Ela também gostava de ouvir essas músicas que você ama?

— Não, isso eu aprendi com meu pai. Mas ela também amava ouvir Rita Lee, que nem você.

— … entendi.


Mas o ciúme dela não era leve. Vinha disfarçado de cuidado, de perguntas que pareciam simples, de silêncios longos demais. E eu, que sempre fui muito distraído com tudo, inclusive sentimentos, percebi só depois que precisava falar o que o coração gritava.


— Lis, se eu não tivesse vivido o que vivi, se não tivesse errado, se não tivesse amado do jeito errado antes... não teria te encontrado.


Ela desviou o olhar, e eu completei:


— Até o que doeu fez parte do caminho até você. Não se prenda a esses sentimentos antigos. Eles só me prepararam para que eu fosse melhor.


Houve um instante de calma. Um quase sorriso nos lábios dela. Aquele mesmo sorriso que me fez perder tudo, ou encontrar tudo, no primeiro dia. Eu soube que ali, diante daquela mulher que era força e delicadeza, estava o que ele procurava — não a perfeição, mas o sentido que só se vê, quem sabe apreciar de verdade a arte.


Ela o olhou de volta, com aquele ar de quem desconfia, mas quer acreditar.


— Tudo bem. Isso tudo é água passada. Temos que agradecer às pontes que nos aproximaram… e ao Guto, eu acho — falou baixo, de maneira tímida, como quem pede perdão por pedir tanta explicação.


Porque certas histórias não precisam ser explicadas. Basta um olhar — e um quase rir para me fascinar.

 
 
 

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Aqui, escrevo o que penso, o que sinto e o que não sei dizer em voz alta. Meus Despropósitos é meu jeito de fazer sentido do caos.

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