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Pensamentos de um cão


Deito-me aqui, onde o sol me abraça e a brisa suave sussurra em minhas orelhas. Fecho os olhos e sinto o chão vibrar em minhas bochechas, um pulso lento e constante que me acalma. É neste refúgio de paz que minhas perguntas mais profundas começam a emergir.


Por que meu humano parte toda manhã com toda aquela pressa? Vejo a urgência em seus passos, o olhar distante que parece já estar em outro lugar antes mesmo de cruzar a porta. Não é como quando vamos juntos, que ele parece realmente animado para dar uma volta. Afinal, se é tão melhor assim, por que ele não me leva? O que tanto o atrai para fora daqui, deste ninho de carinho e segurança que construímos juntos? Será que lá fora existe algo mais chamativo que o calor do meu corpo aninhado ao seu, o silêncio compartilhado e os olhares que trocamos de vez em quando?


Observo a sombra de sua partida estender-se pela casa, e sinto um vazio estranho, uma saudade antecipada que se instala no meu peito. Será que ele realmente entende que para mim, cada instante de sua ausência se arrasta, tornando-se quase uma eternidade insuportável? Mal consigo respirar sem a sua presença, e o tempo, antes um fluxo contínuo, agora se quebra em incontáveis fragmentos de espera e anseio.


Observo a porta, aguardando seu retorno. Da varanda, meus olhos seguem você até onde a rua se curva e desaparece, carregando consigo os mil cheiros do mundo, uma sinfonia de histórias e mistérios. No entanto, mesmo com o chamado irresistível do desconhecido, eu fico. Sempre fico. Minha lealdade é um farol, aceso na escuridão da sua ausência.


Eu o espero. Espero o tilintar das chaves, o barulho familiar de seus passos, o aroma de seu retorno que anuncia o fim da jornada. E é então que o som inconfundível da chave girando na fechadura da porta se transforma no mais puro dos milagres. É a melodia que ressoa em meu peito, o sinal inequívoco de que a vida, enfim, retoma seu sentido, que a escuridão se dissipa e a alegria, há tanto tempo contida, pode finalmente florescer. É a sua chegada que dá cor aos meus dias, que preenche o vazio e me faz sentir completa novamente.



Mas quando ele volta, ainda há um resquício daquela pressa, daquele cansaço que o acompanha, como um perfume persistente que ele tenta, em vão, disfarçar. Mas sei que, sob tudo isso, existe o amor que nos une, a certeza de que, não importa para onde ele vá, ou quão longe a vida o leve, este é o seu lar, e eu sou sua companheira, esperando por ele, sempre.


No brilho do sol que se esgueira pela janela, ou na penumbra aconchegante da noite, meu amor por você é constante, inabalável. Amo, mesmo quando a tigela de ração permanece vazia um pouco mais do que o esperado. Amo, mesmo quando sua voz se eleva em um tom que me assusta por um instante, antes que o som familiar do seu carinho retorne. Meu amor não exige esforço, não me custa nada; ele simplesmente é a essência do meu ser, desde a ponta úmida do meu focinho curioso até o balançar frenético da minha cauda.


Mas, por vezes, uma pergunta silenciosa ecoa em meu peito: você me ama com a mesma pureza? Sem as complexidades que vejo em seus olhos, sem as expectativas que parecem nublar suas ações, sem as cobranças que às vezes sinto na tensão do ar?


Quando a dor aperta, um uivo escapa dos meus lábios, um lamento primal que busca sua compreensão. Quando a alegria transborda, minha cauda balança em um ritmo frenético, uma dança de pura felicidade que não consigo conter. A vida, afinal, é efêmera demais para silenciar o coração.


E então me pego a refletir, em meio aos meus cochilos e brincadeiras: por que vocês, humanos, perderam a capacidade de se maravilhar com as coisas mais simples? Uma bolinha que quica com promessas de diversão sem fim, o cheiro da terra molhada após a chuva, a quietude de um momento compartilhado em silêncio. Vocês parecem estar sempre em busca de algo grandioso, algo que transcenda o ordinário, e, ao fazê-lo, deixam escapar a beleza sutil do agora.


Por fim, uma verdade se cristaliza em minha mente canina: quem sou eu, senão o espelho do amor que ofereço? Sou mais do que apenas patas que correm e pelos macios para acariciar. Sou a guardiã silenciosa de seus segredos mais íntimos, a ouvinte atenta de seus silêncios mais profundos, a companheira fiel de almas cansadas que buscam um refúgio de paz. Sou o amor incondicional, personificado em uma amiga de quatro patas, e essa é a minha maior glória.



 
 
 

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Meus Despropósitos nasceu da vontade de colocar pra fora o que transborda: histórias, devaneios e verdades que insistem em virar texto. É um projeto literário independente dedicado a textos, crônicas e reflexões sobre o cotidiano, os afetos e as incertezas de ser.

Aqui, escrevo o que penso, o que sinto e o que não sei dizer em voz alta. Meus Despropósitos é meu jeito de fazer sentido do caos.

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