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Quero morrer…

— Quero morrer…


— Que isso, Fernanda?!


— MORRER, deixar de existir… PLUFT! Sumir!


— Tá querendo se matar?


— Não, Felipe. Não quero me matar. Só não quero mais ter que andar nesse sol pra pegar um ônibus lotado, ouvir a Sônia do trabalho falando do filho perfeito dela, o Alfredo contando vantagem porque o Flamengo meteu sei lá quantos gols em sei-lá-quem, ficar a noite toda procurando uma coisa para assistir nessa merda de streaming e no final acabar revendo a mesma porra daquela série dos anos 90 até dormir, enfim. Não quero!


— Mas…


— E tem mais! Outro dia aquele traste do vizinho do 402 teve a pachorra de ficar olhando para mim enquanto eu corria toda atrapalhada para abrir o portão lá fora NA CHUVA e nem segurou essa desgraça desse elevador. NA CHUVA, Felipe. Eu não aguento mais. 


— Pera. Quem?


— O barbudo, que deve ter brigado com o barbeiro pela situação do cabelo dele. Aliás, outro dia saí atrasada e tive que esperar aquele filho de uma bela puta descer com a bicicleta dentro do elevador. DENTRO DO ELEVADOR, Felipe. 


— Calma Ferna…


— CALMA É O CARALHO, Felipe. Calma é o caralho. 


— …


— Quer saber? Foda-se também. 


Felipe sempre foi o mais centrado dos dois. O que tenta arrumar uma solução para tudo, mesmo que quase nunca venha com a mais indicada. O que nunca sabe se fala ou fica quieto em uma situação como essa, mas geralmente escolhe a opção mais arriscada. 


Por isso, ele fez o que naturalmente deveria ser feito. Nem tão resolutivo, mas também não tão despretensioso. Nem tão inflamado, mas também longe do passivo silêncio.


— É… foda passar por isso.


 
 
 

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Meus Despropósitos nasceu da vontade de colocar pra fora o que transborda: histórias, devaneios e verdades que insistem em virar texto. É um projeto literário independente dedicado a textos, crônicas e reflexões sobre o cotidiano, os afetos e as incertezas de ser.

Aqui, escrevo o que penso, o que sinto e o que não sei dizer em voz alta. Meus Despropósitos é meu jeito de fazer sentido do caos.

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