Quero morrer…
- Henke Henning
- 12 de set. de 2023
- 2 min de leitura
— Quero morrer…
— Que isso, Fernanda?!
— MORRER, deixar de existir… PLUFT! Sumir!
— Tá querendo se matar?
— Não, Felipe. Não quero me matar. Só não quero mais ter que andar nesse sol pra pegar um ônibus lotado, ouvir a Sônia do trabalho falando do filho perfeito dela, o Alfredo contando vantagem porque o Flamengo meteu sei lá quantos gols em sei-lá-quem, ficar a noite toda procurando uma coisa para assistir nessa merda de streaming e no final acabar revendo a mesma porra daquela série dos anos 90 até dormir, enfim. Não quero!
— Mas…
— E tem mais! Outro dia aquele traste do vizinho do 402 teve a pachorra de ficar olhando para mim enquanto eu corria toda atrapalhada para abrir o portão lá fora NA CHUVA e nem segurou essa desgraça desse elevador. NA CHUVA, Felipe. Eu não aguento mais.
— Pera. Quem?
— O barbudo, que deve ter brigado com o barbeiro pela situação do cabelo dele. Aliás, outro dia saí atrasada e tive que esperar aquele filho de uma bela puta descer com a bicicleta dentro do elevador. DENTRO DO ELEVADOR, Felipe.
— Calma Ferna…
— CALMA É O CARALHO, Felipe. Calma é o caralho.
— …
— Quer saber? Foda-se também.
Felipe sempre foi o mais centrado dos dois. O que tenta arrumar uma solução para tudo, mesmo que quase nunca venha com a mais indicada. O que nunca sabe se fala ou fica quieto em uma situação como essa, mas geralmente escolhe a opção mais arriscada.
Por isso, ele fez o que naturalmente deveria ser feito. Nem tão resolutivo, mas também não tão despretensioso. Nem tão inflamado, mas também longe do passivo silêncio.
— É… foda passar por isso.




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