Solitatem
- Henke Henning
- há 5 dias
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Saudade nasceu do latim, solitatem, e quer dizer solidão. Antes de ser saudade, foi soidade. Antes de nomear uma ausência, nomeava o estado de estar só. A saudade nunca foi apenas falta. Ela é a lembrança de uma presença.
Sinto falta da companhia. Da cadeira ocupada do outro lado da mesa. Das conversas que começavam em qualquer assunto e terminavam questionando a vida inteira. Das risadas que interrompiam raciocínios importantes porque, naquele instante, rir parecia mais urgente do que entender.
Há uma saudade peculiar dos vinhos divididos. Não da bebida em si, mas do ritual: escolher uma garrafa, servir duas taças e descobrir que, depois da segunda, o mundo sempre parecia um pouco mais honesto. Era quando as máscaras descansavam e os silêncios deixavam de ser constrangedores para se tornarem companhia.
Talvez seja isso que a solidão jamais consiga imitar: o privilégio de existir diante de alguém sem precisar representar nada. Ser apenas uma coleção de dúvidas, memórias, piadas ruins e sonhos improváveis, enquanto o outro respondia com o mesmo desajeito.
A saudade não faz alarde. Senta à mesa, ocupa o lugar vazio e lembra que algumas pessoas continuam acontecendo dentro de nós.
Se a origem da saudade realmente repousa na solidão, então talvez ela seja também a sua mais bonita contradição. Porque toda saudade é uma solidão que já conheceu o privilégio da companhia.


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