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Amor suficiente

Em algum momento, o amor vai decepcionar.


Pessoa andando em corredor escuro

Não sou pessimista e não quis soar nefando. Mas é que esse caminho é natural no convívio entre indivíduos diferentes.


O amor pode te decepcionar porque ninguém consegue viver dentro do outro sem, vez ou outra, precisar voltar para si. Há horas em que é preciso sair, respirar, lembrar o próprio nome. Quem se esquece disso acaba se perdendo.


O amor real não promete completude. Ele não elimina o medo, nem resolve as diferenças. Mas fica. Aguenta a distância, atravessa o silêncio, suporta a verdade quando ela desmonta fantasias.

Talvez a maior decepção que a vida nos reserva no campo do afeto seja o inevitável reconhecimento de que é impossível preencher todos os vazios da pessoa amada. É uma fantasia juvenil que se esvai com a maturidade. Com a experiência: a de que o nosso amor, por mais profundo e dedicado, será a única fonte de satisfação, alegria e apoio para o outro.


Essa percepção chega como um golpe sutil num dia qualquer. Você se dá conta de que haverá sempre necessidades, anseios e principalmente áreas da vida do seu parceiro que simplesmente não lhe cabem suprir. Ele ou ela buscará crescimento em experiências que não o incluem. E, no fundo, essa é a essência de uma individualidade saudável.


No entanto, o que conforta, o que permite que o amor persista e floresça, é a revelação subsequente e ainda mais poderosa: a de que, mesmo não sendo tudo, você continua a ser suficiente.


Ser suficiente não é o mesmo que ser único. É ser o elemento insubstituível. A pessoa para quem o outro retorna, a presença que acalma o caos e a voz que ressoa com verdade. 

Essa é a beleza agridoce do amor maduro: aceitar não ser tudo e abraçar o “ser suficiente”. A frustração inicial de não poder preencher a totalidade do ser amado é trocada pela paz de saber que a sua contribuição é profundamente valorizada. 


Amar cansa quando vira esforço. Deixa de ser um refúgio e se torna um campo de batalha.

Quando exige desempenho, o amor torna-se uma performance. A busca incessante por agradar, por ser "o suficiente", transforma o que deveria ser leve em uma maratona onde a medalha nunca parece ser alcançada.


Então, faça pausas. Volte. Respire. O amor não desaparece quando você se reencontra. Se for amor, ele espera. Crescer é aprender a se decepcionar sem endurecer. É aceitar que a vida não corresponde às idealizações.


No fim, a pergunta permanece simples e incômoda: você tem permitido ser amado como é — ou apenas como acha que deveria ser?

 
 
 

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Meus Despropósitos nasceu da vontade de colocar pra fora o que transborda: histórias, devaneios e verdades que insistem em virar texto. É um projeto literário independente dedicado a textos, crônicas e reflexões sobre o cotidiano, os afetos e as incertezas de ser.

Aqui, escrevo o que penso, o que sinto e o que não sei dizer em voz alta. Meus Despropósitos é meu jeito de fazer sentido do caos.

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