Tô viciado em você
- Henke Henning
- 27 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
As pessoas dizem que todo mundo é viciado no celular hoje em dia. A tela, a luz azul, o deslizar infinito que rouba nossa atenção. Eu não. Se não fossem as suas mensagens, eu deixava o meu esquecido em cima da mesa, um peso de papel moderno e inútil.
Vejo suas mensagens curtas, às vezes, até sem pontuação. Só um emoji que já diz tudo, ou um "oi" que desarma meu dia e pronto. A luz da tela pisca com o seu nome, e eu viro escravo do bip. Não é a tecnologia que me domina, é a sua presença mediada por ela. Eu carrego o celular pela casa como quem carrega um frasco de remédio que precisa tomar de hora em hora. Não porque eu morra sem ele, mas porque com ele eu vivo melhor.
Penso em você naqueles lapsos de memória rotineiros, quando abro a geladeira e esqueço o que eu ia pegar. Penso em você quando a água do café começa a ferver e eu fico ali, olhando para o nada, imaginando se você estaria precisando de um café agora.
Penso em você quando o céu ameaça chuva, e me pergunto se você pegou o guarda-chuva. Penso em você, principalmente, quando a notificação que chega não é sua — é um e-mail de trabalho, uma notícia qualquer, um alerta de promoção — e eu faço aquela cara de quem leu na rua uma placa escrito “Restaurante Familiar”, mas quando entrou percebeu que era uma igreja “restaurando famílias”. Depois de imaginar o sabor de um feijão bem temperado, veio o sermão abençoado. A decepção é rápida, mas real.
Penso em você até quando escovo os dentes só porque este é o único momento do dia em que sorrio antes de perceber o motivo.
É que você virou esse hábito meio involuntário. Não é um pensamento que eu precise evocar; ele está ali o tempo todo. Você se tornou um costume, o mais bem-vindo de todos. Um reflexo que antecede a consciência. Você é o pequeno fogo que me acompanha, o calor que se mantém.
Não é que eu queira me livrar disso. A ideia de recuperação ou cura para esse vício me parece absurda. Na verdade, eu gosto da ideia de que, entre tantos vícios ruins, o meu seja esse: carregar você no bolso, na rotina, na cabeça, nos silêncios. Você é meu antídoto para o tédio e para o barulho.
Tô viciado em você, no cheiro da sua ausência, na expectativa do seu retorno, na certeza da sua lembrança e, sinceramente, não tô nem tentando me recuperar.
Que esse seja o meu vício eterno.







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