A dor de voltar para casa
- Henke Henning
- 5 de ago.
- 2 min de leitura
A palavra nostalgia vem do grego antigo e significa, literalmente, "a dor do retorno". Ela une nóstos (volta para casa) e álgos (dor).
Curiosamente, quando o médico suíço Johannes Hofer cunhou o termo, em 1688, ele não estava descrevendo um sentimento, mas uma doença.
A nostalgia era considerada um sofrimento físico e mental de quem estava longe de casa. Acreditava-se que podia causar febre, tristeza profunda e até levar à morte.
Com o tempo, a medicina abandonou esse diagnóstico. Mas a palavra permaneceu. E talvez nunca tenha deixado de falar sobre a mesma coisa: o desejo de voltar para um lugar que, muitas vezes, já não existe.
A nostalgia parece com saudade. Talvez porque as duas olhem para trás. Mas elas procuram coisas diferentes.
A saudade sente falta de alguém ou de algum momento. A nostalgia sente falta de quem nós éramos quando aquilo aconteceu.
Percebi isso outro dia, quando encontrei uma fotografia antiga. Não invejei o lugar, nem as pessoas que estavam nela. O que me comoveu foi reconhecer o rapaz que sorria para a câmera como se o mundo ainda fosse um território inteiro a ser descoberto. Eu me lembrava dele. Só não sabia que sentiria sua falta.
Desde então, tenho pensado que crescer é colecionar últimas vezes. A última vez que brincamos sem saber que era a última. A última conversa antes de uma amizade mudar de forma. A última noite em que a vida parecia simples. Há versões de nós que desaparecem sem aviso: o menino que passava horas lendo sem olhar o relógio; o jovem que acreditava saber exatamente o que fazia; a pessoa que ainda não conhecia certas dores e, justamente por isso, caminhava com a insegurança de quem ainda não viu o mundo quebrar e não com o medo de quem já sabe do que ele é capaz.
Nenhuma delas morreu de repente. Apenas foram cedendo espaço para quem eu precisei me tornar.
Às vezes penso que passei tanto tempo tentando preservar minhas lembranças que esqueci de me despedir das minhas versões antigas. Talvez essa seja a verdadeira serventia da nostalgia.
Não me prender ao passado, mas me apresentar, de tempos em tempos, alguém que um dia fui.
Ela me lembra que continuo mudando. Que algumas partes de mim ficaram pelo caminho, enquanto outras só puderam nascer porque aquelas partiram.
Talvez crescer não tenha a ver com deixar de ser quem éramos. Talvez seja carregar todas essas versões dentro de nós, aceitando que nenhuma delas poderia permanecer para sempre.
Porque a saudade pede o retorno de alguém. A nostalgia apenas nos leva de volta para casa e às vezes descobre que quem foi embora fomos nós.




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