Meu Erro
- Henke Henning
- 1 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Herbert chegou à sua cidade natal com o cheiro de chuva impregnado no casaco de couro. Talvez ter vindo de moto para o velório da mãe não tenha sido a melhor ideia.
O ar pesado característico dessas ocasiões misturava o cheiro de café com o das flores tristes. Ao passar pela porta, todos os presentes o olhavam com pesar, como se esperassem a primeira lágrima para oferecer consolo.
Entre cumprimentos esquisitos, um rosto chamou sua atenção: Isabel, a mãe de Lucy, parada perto da porta, com um lenço nas mãos. Lucy fora sua namorada por dez anos — e as condições do término não foram boas. Ele não sabia como agir.
Isabel tomou a iniciativa. Cumprimentou-o por educação — um aceno breve, quase mecânico —, mas o desconforto atravessou o ar como um trovão distante.

— Sinto muito — ela disse.
Herbert não soube se Isabel se referia à morte de sua mãe ou ao amor juvenil que ele havia destruído, mas assentiu. Quis perguntar sobre Lucy, porém faltou coragem. Ainda assim, o olhar da mulher respondeu por ela: Lucy estava viva, mas relutante. Vinha lutando consigo mesma para decidir se aparecia ali — naquele lugar cheio de lembranças e sentimentos.
Durante o velório, Herbert se manteve afastado.
De vez em quando, via uma sombra feminina cruzar o corredor e seu peito se contraía. Não sabia se era ela ou apenas o reflexo daquilo que desejava que fosse.
Mais tarde, enquanto se despedia e agradecia pela presença de todos, olhou para o café do outro lado da rua e, por um instante, pensou estar vendo mais uma ilusão. Mas aquela silhueta tinha um olhar fixo, familiar. Sua mente tentava manter o controle, mas, pelas coisas que o coração faz, não existe muita razão.
Era Lucy.

Havia nos olhos dela uma firmeza nova, uma luz que não o reconhecia mais — e, ainda assim, era ela.
— Lucy… — ele disse, quase sem voz.
Ela respirou fundo.
— Herbert.
Tomaram um café que esfriou antes da segunda frase. Entre um gole e outro, ele se lembrou de como ela ria. Vieram as lembranças, os verões, as brigas, as promessas não cumpridas.
Por um instante, acreditou que o passado poderia ser reescrito.
— Eu ainda vou passar um tempo resolvendo as coisas da minha mãe — disse, tentando parecer casual. — Depois disso, penso em voltar pra cá. Talvez seja hora de compensar meu erro… de ter te deixado pra trás.
Lucy pousou a xícara com delicadeza. O som seco da porcelana sobre o pires soou como um ponto final.
— Acho que o erro foi meu, na verdade.
Ele ergueu o olhar, surpreso. Mas o que veio depois não era perdão. Era libertação.
— Quando eu quis dizer que poderíamos ter uma vida juntos, aonde você fosse, você não quis escutar. Agora não me peça pra acreditar que vai ser diferente.
Herbert ficou atônito. Não esperava ouvir aquelas palavras.
— Eu me lembro bem de você dizendo não saber o que havia de errado em tentarmos continuar juntos, apesar da distância. Me lembro de gritar o seu nome quando você, se despedindo, passou pela porta da minha casa. Pedi pra que não me abandonasse. Mas você foi.

O silêncio pesou. Ela respirou fundo, firme.
— Mesmo querendo muito acreditar nesse papo de que a gente mudou, não vou mais me enganar. Ainda somos iguais. Eu conheço muito bem seus passos e seus erros ainda ecoam em mim. Convivemos por dez anos, Herbert. Quase o mesmo tempo que estamos separados. Apesar disso, não há nada de novo. Então, desta vez, serei eu a passar pela porta. E, por favor, não me chame. Nem olhe pra trás.
Ela levantou-se, pagou o café e foi embora.
Ele ficou ali, imóvel, observando o reflexo dela desaparecer no vidro.
O café estava frio. O coração, também.
Na rua, o vento carregava o cheiro de chuva.
Herbert só pensava numa frase que nunca foi dita — que ficara entalada em sua garganta: “Meu erro foi crer que estar ao seu lado neste momento bastaria para apagar o passado. Afinal, era tudo o que eu queria: voltar no tempo e refazer aquela cena. Agora, eu te levaria comigo.”




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