O silêncio de um amor intenso
- Henke Henning
- há 1 dia
- 4 min de leitura

Se a sua única referência uma relação turbulenta, cheia de altos e baixos, onde o medo da perda se mistura com a euforia do reencontro, talvez seja crucial parar e refletir. É um sinal de alerta se você só consegue reconhecer e se sentir confortável em conexões que beiram o caos, onde a instabilidade é a norma e a paz é a exceção.
A necessidade de drama e a atração pelo que é volátil podem estar enraizadas na nossa história. Muitas vezes, buscamos replicar inconscientemente a intensidade e a imprevisibilidade de dinâmicas familiares passadas, confundindo familiaridade com afeto. O que parece ser paixão pode ser a ansiedade de apego sendo reativada, nos forçando a lutar por um amor que, na sua essência, não oferece a segurança de que precisamos.
O amor que realmente funciona e nutre não precisa ser uma montanha-russa constante. O silêncio de um amor que funciona, aquele que é calmo, seguro e previsível, pode ser inicialmente interpretado como tédio ou falta de emoção. No entanto, é nesse silêncio que a verdadeira intimidade floresce, livre da sombra da incerteza e do medo.
Permita-se reconhecer que a verdadeira força de um vínculo reside na sua estabilidade, e não na sua capacidade de gerar fortes emoções. O amor saudável é aquele que te acalma, e não o que te tira o sono.
Quando tudo parece “calmo demais”, alguns têm o costume de não aceitar a realidade. Eles procuram o fio solto no tapete da rotina, a rachadura invisível na parede da relação, a evidência de que a tranquilidade é, na verdade, uma farsa prestes a desmoronar. Esperam, com uma expectativa estranha, o inevitável plot twist, aquela reviravolta dramática que confirmará suas suspeitas.
Aprenderam, em algum momento da vida, talvez por meio de filmes, músicas ou experiências passadas carregadas de drama, que a ausência de conflito é sinônimo de estagnação ou, pior, de indiferença. O silêncio e a estabilidade são lidos como falta de paixão, e a ausência de drama é confundida com a ausência de sentimento. Eles não sabem como viver sem a adrenalina da incerteza e, por isso, sabotam a calmaria em busca da intensidade familiar do conflito.
Na serenidade, desconfiam. Se não há emoção, algo está errado. Se o outro responde com maturidade e não fica na defensiva, parece ensaiado demais. A quietude vira prova de crime quando confundimos paz com monotonia, estabilidade com falta de sentimento, e rotina com estagnação emocional. Precisam do movimento da gangorra para se sentirem vivos. Se não há alternância constante de altos e baixos, sentem que a relação parou. Que o brinquedo quebrou.
“Aceitamos o amor que achamos que merecemos.” — Stephen Chbosky
Essa frase parece simples, quase inofensiva, mas ela bate exatamente no ponto sensível desse tipo de relação. Porque quem desconfia da sorte de um amor tranquilo, geralmente não acha que merece tranquilidade. Quando o outro não grita, não ameaça ir embora, não cria tensão, algo soa fora do script. É como receber um presente caro demais e passar o tempo todo procurando a nota fiscal para devolver o valor gasto.
Aceitar o amor que se acha merecer é, muitas vezes, repetir padrões conhecidos. É confundir intensidade com verdade, dor com profundidade, e ansiedade com paixão. Por isso, quando aparece alguém disposto a amar sem jogos, sem pegadinhas, sem guerra fria, o corpo entra em alerta máximo. A mente procura o erro. O coração, treinado para sobreviver e não para descansar, não sabe onde colocar as mãos.
E aí vem o choque de realidade que a frase carrega, quase em silêncio: se você só se sente amado quando está em estado de defesa, talvez não seja amor o que você aprendeu, mas sim sobrevivência emocional.
A citação não acusa um erro, ela revela que estamos repetindo comportamentos que podem não ser ideais. E talvez o verdadeiro ato de coragem não seja viver um amor intenso, mas ousar ficar quando tudo está calmo. O difícil, no fim das contas, não é amar alguém complicado. É acreditar que você merece um amor que não precisa ser sentido o tempo todo para ser real.
O problema é que, quando você vive esperando o incêndio, qualquer vela vira ameaça. É uma vida vivida sob a constante sombra do medo, onde a antecipação da catástrofe impede a apreciação do calor brando. Não há espaço para o conforto ou para a simples beleza do que é constante e silencioso.
Nesse cenário de vigilância, a desconfiança corrói a autenticidade das interações: flores servem para pedir desculpas. O afeto pede algo em troca, transformando gestos de carinho em transações financeiras emocionais, onde a gratuidade do amor é vista como uma farsa, um golpe. Surpresas não são positivas, pois rompem o controle e a previsibilidade que a mente ansiosa busca desesperadamente, sendo interpretadas como potenciais fontes de desorganização e dor, em vez de alegria espontânea.
Por fim, a rotina mata o amor, não porque a estabilidade seja inerentemente destrutiva, mas porque a mente que anseia pelo drama confunde paz com tédio. Confunde a ausência de crise com “não se importar”. Assim, o amor saudável e funcional, aquele que floresce no silêncio e na constância, é inadvertidamente sabotado em busca de uma intensidade destrutiva que, paradoxalmente, é tudo o que se deseja evitar.
Perfeito demais
Lembro do caso da separação de Kaká, um homem visto como "perfeito demais" – fiel, tranquilo, correto. A ausência de drama em sua vida amorosa era tratada como um defeito, algo suspeito. A ideia de amar sem causar feridas era tida como uma farsa bem montada. Há quem ache que a felicidade simples e sem turbulência é falsa, que a gentileza extrema esconde algo, e que o contentamento discreto não merece atenção.
Assim como não devemos medir o afeto pela quantidade de declarações públicas, precisamos estar atentos à forma como enxergamos um relacionamento saudável. Ele não precisa de uma grande história para ser contado todos os dias. Não gera textão, depoimento choroso ou desabafo em toda roda de amigos. O amor que funciona se manifesta no trivial: na conversa aberta, no respeito que não precisa ser cobrado, na confiança que não precisa de testes e nos gestos, por mais simples que sejam.
Para quem cresceu em meio a batalhas emocionais, isso parece tedioso, vazio, até mesmo errado. Mas, talvez, o problema não esteja no relacionamento que é "perfeito demais", mas sim em nossa dificuldade de ver o amor como porto seguro, e não como turbilhão.
Aceitar essa calma leva tempo. A paz, ao contrário do drama, não exige holofotes. É feita de permanência, serenidade e desse "tédio" acolhedor.







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