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Quem me conhece, sabe

A internet está cheia de reacts e gente falando com muita convicção e sem muita certeza, mas outro dia assisti a um vídeo surpreendente: 


Começa com um rapaz usando um dispositivo para desrosquear tampas de garrafa. Daí outra pessoa, um barbudo de óculos dentro do carro, gravou-se abrindo, com as mãos, a tampa em menos de um segundo como quem diz “veja que simples fazer isso sem usar ferramentas”. 


O vídeo todo divide espaço com uma pessoa em tela cheia reagindo. Ao final, ela  explica que existem pessoas com necessidades físicas especiais que não conseguem realizar essa “simples tarefa cotidiana” e precisam daquele tipo de dispositivo, dando uma lição de moral ao barbudo porque aquilo era problemático. Até aí, discussão normal de internet.


O que me surpreendeu mesmo foi quando o barbudo voltou com um discurso apologético sincero, sem culpar ninguém, sem se explicar. Apenas se desculpando e agradecendo à pessoa por ser “voz para quem precisa”. O vídeo foi postado no perfil dele, como uma retratação. 


Quando vi aquele vídeo — sem os padrões “quem me conhece” ou “quem se sentiu ofendido”, sem culpar o vídeo por não ser claro e sem tentar reverter a lição de moral em lacre — senti algo que não se costuma sentir fácil hoje: leveza. O cara erra, fala sério e assume a falha com naturalidade. E não espera aplauso. Não pede desculpas pomposas. Apenas diz que fez aquilo, não sabia do que se tratava, achou que era mais um daqueles itens que inventam para tirar dinheiro de trouxa e, a partir do momento que soube do que se tratava, quis dar uma explicação porque nunca foi intenção dele fazer pouco de uma condição específica ou de pessoas como aquela.


É impressionante como algo tão simples escancara o absurdo que construímos em nossa cabeça: de que admitir um erro é fraqueza. Por quê tentamos escapar disso com textão? Talvez por medo. Medo de parecer vulnerável, de expor uma imperfeição. Medo de que, ao confessar “eu errei”, alguém ache que você é menor.  


Mas a verdade é que o que diminui você não é o erro. É a negação dele. É insistir numa versão que protege o ego e não a verdade.  


Admitir que falhou é um ato de coragem. É abrir mão da armadura que, muitas vezes, pesa mais do que liberdade. É dizer para si mesmo — e para os outros — que você reconhece sua humanidade. Que você não é infalível. Que errou. E que vai tentar consertar, aprender, seguir. Isso exige humildade, honestidade, integridade. Características que se revelam quando a gente erra.  


Quero crer que esse vídeo toca fundo justamente porque lembra algo que já deixamos pra trás: o simples de ser humano. O direito (e dever) de admitir que falhamos, sem rodeios, sem desculpas esfarrapadas. Sem fingir que éramos perfeitos o tempo todo.


E sei lá… talvez a grande lição que ele traz é essa: errar não precisa ser silêncio ou negação. Pode ser declaração de que estamos tentando, aprendendo. Um passo para trás, outro para frente.

 
 
 

1 comentário

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Raphael Boamorte
08 de dez. de 2025
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Ótima reflexão, mas eu adicionaria mais uma: temos que aprender a ficar mais quietos na internet também. Contraditório, já que estou comentando aqui, mas é isso 😂

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