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Pela última vez


mãos de idosa sobre fotos antigas

Tudo o que você faz na vida, você um dia fez pela primeira vez, mas algumas coisas você fez pela última e nem se lembra. É uma matemática simples, mas que assusta quando a gente realmente pensa nela.


O curioso é que ninguém avisa quando esse “último” acontece. A gente não recebe um alerta dizendo: “preste atenção, você nunca mais vai estar neste lugar”. Não há suspense, trilha sonora, nem uma luz diferente no ambiente.


Você simplesmente fala com alguém, como já fez tantas vezes antes, sem saber que talvez aquela seja a conversa final. Pega seu filho no colo sem imaginar que, dali para a frente, ele ficará grande demais para isso. Visita um lugar que marcou sua vida, acreditando que ainda voltará lá outras vezes. Saboreia um prato preferido achando que poderá repetir o ritual sempre que quiser. Vai a um restaurante qualquer, com a mesma naturalidade de sempre, sem notar que aquele pode ser o último almoço naquele canto específico do mundo.


E isso vale para tudo:

O último banho de chuva, o último dia em que você dorme na casa dos seus pais, o último café que você conseguiu saborear com calma, o último sorriso trocado com um desconhecido que nunca mais cruzará seu caminho.


O último adeus…


Sim, as primeiras vezes têm sua importância. Elas inauguram mundos, abrem portas, dão início a histórias que dão vontade de repetir e outras que a gente prefere esquecer. São o frescor, o susto, o tropeço, o despertar.


Mas as últimas…


As últimas têm um segredo. Uma mística que só existe porque passam despercebidas. Elas não chegam com anúncio e se vão com silêncio. Entram pela rotina como quem não quer nada, como se fossem apenas mais um acontecimento efêmero dentro da vida comum.


E talvez seja justamente aí que mora a beleza: no fato de que o encerramento das coisas é quase sempre invisível, e por isso mesmo tão valioso. A última vez não é tristeza que vem instantânea. Ela precisa marinar para pegar gosto.


Se soubéssemos que algo está acontecendo pela última vez, talvez não tivéssemos coragem de seguir, ou tentaríamos eternizar aquele instante. Perderia a naturalidade, sabe?


O que nos resta, então, é esse exercício de delicadeza: viver sabendo que tudo é finito, que cada gesto carrega um começo e um fim e que, no meio disso tudo, existe a chance preciosa — e profundamente humana — de prestar mais atenção.


Quem sabe, assim, as últimas vezes não se tornem menos tristes. Ou, ao menos, mais inteiras.


 
 
 

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Meus Despropósitos nasceu da vontade de colocar pra fora o que transborda: histórias, devaneios e verdades que insistem em virar texto. É um projeto literário independente dedicado a textos, crônicas e reflexões sobre o cotidiano, os afetos e as incertezas de ser.

Aqui, escrevo o que penso, o que sinto e o que não sei dizer em voz alta. Meus Despropósitos é meu jeito de fazer sentido do caos.

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