Quando eu escrevo (ou quando o texto me escreve)
- Henke Henning
- 28 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Escrever, para mim, é uma experiência curiosa. Às vezes eu só preciso sentar e realizar uma ideia que já nasceu pronta, tipo bolo de caixinha: Um enredo para dar sabor, duas colheres de humor, uma pitada de sarcasmo e… voilá!

Já escrevi também em tópicos. É como espalhar peças de um quebra-cabeças na mesa antes de montar, mas sem sequer saber se todas aquelas peças são do mesmo jogo. Com este arquivo fica a promessa de que sempre vou “dar uma passadinha” para ver como ele está, se tem alguma novidade.
De vez em quando, o final aparece antes de tudo. Aquele desfecho redondinho, satisfatório. Eu olho pra ele e penso: “perfeito, agora só falta… todo o resto”. Outras vezes, tenho só o início, uma primeira frase brilha na cabeça, mas e o resto?
Fico ali encarando a tal da frase brilhante, esperando que ela, sei lá, me diga pra onde quer ir e ela se faz de difícil. Um flerte em que ambos estão a fim de ficar juntos, mas é necessário que a iniciativa venha de mim. Pois se é assim, que vá cada um para o seu canto e não se fala mais nisso. Um dia talvez a gente se encontre numa sintonia melhor.
Sem contar os dias em que o texto me sabota. Eu sento pra escrever uma coisa, planejo um caminho, mas ele resolve pegar um atalho por conta própria. Vai tomando rumos próprios, me desobedecendo descaradamente. De repente, percebo que estou escrevendo algo completamente diferente — e pior (ou melhor), faz sentido! Normalmente ele tem razão.
Mas eu tenho também uma história grande, o “enredo principal”, amigo íntimo que sempre anda comigo. Não escrevo de forma linear, claro. Às vezes aparece uma cena nova pro meio, um detalhe pro começo, ou uma epifania de madrugada que muda tudo lá no fim. É uma bagunça organizada que geralmente sobra para “eu do futuro” lidar.
E quando acho que está tudo encaminhado, lá vem uma ideia “brilhante”: mudar o nome de um personagem importante (onde eu estava com a cabeça para chamá-lo de “Afonso”?). Ou pior, inventar um novo personagem. Aí começa o efeito dominó de precisar encaixar um tal de “Pedrinho” em cada capítulo, como se ele sempre tivesse estado lá. Estudou na mesma faculdade do protagonista, onde se conheceram, era apaixonado pela irmã… vixe! Ele era filho único.
Era apaixonado pela irmã dele, “Marluce”, mais velha, que foi estudar em outro país com 17 anos (para eu não precisar mudar a parte da infância na casa dos pais) e que voltou aos 22 foi cursar medicina na mesma faculdade do irmão (foi aí que o Pedrinho se apaixonou. Pronto).

Escrever é isso: brincar de Deus num universo que vive me lembrando que tem vontade própria. É quase um trabalho de arqueologia narrativa onde eu cavo o passado do texto para encaixar o presente.
No fim das contas, escrever pra mim virou uma série de TV. Tem um enredo principal que avança lentamente, entre pausas e ganchos, mas a cada “episódio” eu resolvo outro caso. Quem diria que o segredo pra me concentrar seria justamente não focar em uma coisa só?
Agora mesmo, por exemplo, estou escrevendo sobre escrever enquanto o meu “projeto principal” continua ali, parado, atualizado pela última vez há um mês.
A verdade é que o escritor, pobre do escritor, acredita que escreve seus textos. Mas, se for sincero, sabe quem realmente manda.
