Versões de mim
- Henke Henning
- 17 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Já parou para pensar quantas versões de você existem por aí? Não se trata de falsidade, mas sim de adaptação, de nuances que a vida social exige e que moldam quem somos em cada contexto. Somos um mosaico complexo, e cada peça brilha de um jeito diferente sob a luz de quem nos observa.

Se perguntarem no trabalho, sou o profissionalismo em pessoa. Sou um cara capaz de encarar a maioria das coisas com bom humor, sem me abalar muito pelas pressões do dia a dia ou pelos prazos apertados.
A eficiência e a resiliência são as minhas marcas registradas ali. Apresento soluções, mantenho a calma em crises e sou visto como um pilar de estabilidade, pronto para mais um desafio. Essa versão é a que veste a armadura da competência, focada em resultados e na construção de uma imagem sólida.
Na minha família, a dinâmica muda drasticamente. Aqui, sou reservado, quieto. Falo pouco, escuto mais do que exponho e evito abrir meus problemas e as minhas ansiedades para não preocupar ninguém.
É um instinto de proteção, uma tentativa (talvez ingênua) de blindá-los da minha carga emocional. Essa versão se recolhe, assume o papel de porto seguro silencioso, observando e cuidando à distância, carregando sozinho o peso que deveria ser compartilhado.
Para o círculo seleto de amigos, sou o completo oposto. É onde a espontaneidade floresce sem freios. Sou o cara que fala o que vem à mente, sem filtro, e que geralmente destila uma piada infame com humor duvidoso.
O sarcasmo e a irreverência são a moeda forte. Essa é a versão despreocupada, aquela que busca aliviar a tensão e que valoriza a risada fácil, mesmo que seja às custas de um bom constrangimento coletivo. É a liberdade de ser imperfeito, mas genuíno.

No entanto, para os mais íntimos, aqueles que veem além da superfície de piadas e silêncios, a máscara cai completamente, revelando a matéria-prima da minha existência: a ansiedade.
É ali que transparece o medo incessante de querer sempre acertar, de não decepcionar, de ser bom o suficiente. Fico refazendo todos os passos da minha vida em um ciclo mental exaustivo, pensando constantemente: "o que as pessoas pensam de mim?".
Essa é a versão vulnerável, a que busca validação e aceitação, aprisionada na busca pela perfeição inatingível. É o medo de ser julgado, o pavor de falhar.
Mas há uma versão, a mais enigmática de todas, que não é moldada por olhares externos. Aquela que, em uma terça-feira qualquer, me espera no sofá. É a versão que mergulha em horas de vídeos no Youtube sem pensar muito no que está vendo, comendo o que quer, sem pressa e sem culpa.
É o eu sem performance, sem expectativas. Ela existe só para mim. E eu ainda estou tentando descobrir quem ela é, qual é a sua essência não-filtrada.
Talvez ela seja a única que realmente importa, o ponto zero que dá sentido a todas as outras máscaras que coloco e tiro ao longo do dia. A busca por essa verdade interior é, afinal, a busca pela identidade.







Comentários